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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Despedida

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.
Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.
E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?
Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.
Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.
A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.


Extraído do livro "A Traição das Elegantes", Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1967, pág. 83.

terça-feira, 27 de julho de 2010

O que faz você feliz ?



O que faz você Feliz ? O que faz você feliz ? O que faz você... A lua, a praia, o mar, uma rua, um doce, uma dança, paixão, dormir cedo, comer chocolate, passear na cidade, o carro, o aumento, a casa, o trabalho. O que faz você feliz? O que faz você... Arroz com feijão, matar a saudade, goiabada com queijo, um amor, um desejo. Um beijo na boca, um dia de sol, viver um romance, jogar futebol. O que faz você feliz ? O que faz você feliz ? O que faz você feliz ? O que faz você feliz ?

- Seu Jorge

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Rotina


A idéia é a rotina do papel. O céu é a rotina do edifício. O início é a rotina do final. A escolha é a rotina do gosto. A rotina do espelho, é o oposto. A rotina do jornal é o fato. A celebridade é a rotina do boato. A rotina da mão é o toque. A rotina da garganta, é o rock. O coração é arotina da batida. A rotina do equilibrio é a medida. O vento é a rotina do assobio. A rotina da pele, é o arrepio. A rotina do perfume é a lembrança. O pé é a rotina da dança. Julieta é a rotina do queijo. A rotina da boca, é o desejo. A rotina do caminho é a direção. A rotina do destino é a certeza. Toda rotina, tem a sua beleza.
Descubra a sua !

domingo, 20 de junho de 2010

On my own

E agora eu estou sozinha de novo nenhum lugar para ir, nenhuma companhia, sem um lar, sem um amigo, sem uma face para dizer oi, mas agora a noite está próxima e eu posso imaginar que ele está aqui. Algumas vezes ando sozinha à noite quando todos estão dormindo eu penso nele e então fico feliz com a companhia que mantenho. A cidade vai para a cama e eu posso viver dentro de minha mente por mim mesma fingindo que ele está ao meu lado. Totalmente sozinha eu ando com ele até amanhecer. Sem ele, eu sinto seus braços a minha volta e quando me perco no caminho, fecho meus olhos e ele me encontra. Na chuva, a calçada brilha como prata, todas as luzes são nubladas na chuva. Na escuridão, as árvores são cheias de luzes estreladas e tudo que eu vejo é ele e eu para sempre e sempre, e eu sei que isso é só meu pensamento que eu estava falando comigo mesma e não com ele. E embora eu saiba que ele é cego eu continuo a dizer que existe um caminho pra nós dois. Eu o amo, mas quando a noite acaba ele se foi, o rio é só um rio, sem ele o mundo ao meu redor muda. As árvores são nuas e em qualquer lugar as ruas são cheias de estranhos. Eu o amo, mas todos os dias estou aprendendo, toda a minha vida eu só tenho fingido. Sem mim, o mundo dele continuará acontecendo. Um mundo cheio de alegria que eu nunca conheci. Eu o amo, eu o amo mas só pra mim mesma.

On my own - Les Miserables

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Faz de conta

...sentou-se para descansar e em breve fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que que dela não estava em silêncio alvíssimo escorrendo sangue escarlate, e que ela não estivesse pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde-cintilante, faz de conta que amava e era amada, faz de conta que não precisava de morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus,..., faz de conta que vivia e que não estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos de perplexidade quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de corda de marinheiro que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua pois ela era lunar, faz de conta que ela fechasse os olhos e os seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos de gratidão, faz de conta que tudo o que tinha não era faz de conta, faz de conta que se descontraía o peito e a luz douradíssima e leve a guiava por uma floresta de açudes mudos e de tranqüilas mortalidades, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando por dentro...
- Clarice Lispector

Querer demais

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.Como eles admiravam estarem juntos!Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
- Clarice Lispector

terça-feira, 15 de junho de 2010

Ultra Violeta

Às vezes sinto como se eu não soubesse, às vezes eu tenho vontade de confirmar. Eu queria entender errado Não posso ser forte sempre e o amor não será longo.
Oh baby, não chore. Oh, criança enxugue as lágrimas de seu olhos Você sabe que eu preciso que você seja forte e o dia é tão escuro quanto a noite é longa. Me sinto como lixo você me faz sentir limpo, eu estou no escuro não posso ver ou ser visto. Amor, amor, amor ilumine meu caminho. Você enterra seu tesouro onde não pode ser achado mas seu amor é como um segredo que se espalhou. Há um silêncio que vem de uma casa onde ninguém pode dormir, eu acho que é o preço do amor, eu sei que não é barato. Eu me lembro Quando nós podíamos dormir sobre pedras, agora nós deitamos juntos em sussurros e gemidos. Quando eu estava completamente confuso e ouvi ópera em minha cabeça, seu amor foi como uma lâmpada incandescente Pendurada em cima da minha cama.

Eu sou a sua luz, não vê que precisa de mim ?
Não vê que é a mim que tanto procura ? Estive do seu lado
mas você nunca esteve do meu de verdade. Agora você esta confuso, perdido e no escuro
eu te guiarei na escuridão. Com meus pés abrirei caminhos.


Baby, baby, baby, light my way.
Oh, come on, baby, baby, baby,
light my way.
- Ultraviolet (Light My Way) - U2

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Assustada andando em círculos. Estou debaixo da terra. Eu caio sim, eu caio. Estou enlouquecendo onde eu estou agora? De cabeça pra baixo não posso parar com isso agora, isso não pode me parar agora. Eu vou vencer. Vou sobreviver quando o mundo estiver se partindo. Quando eu finalmente atingir o chão não vou apenas me virar, não tente me parar, não vou chorar. Eu estou no país das maravilhas de pé novamente, isso é real? É fingimento? Vou me defender até o fim.


I'll get by
i'll survive
When the world's crashing down
When I finally hit the ground
I won't turn myself around
Don't you try to stop me I won't cry."
Avril Lavigne - Alice

terça-feira, 2 de março de 2010

Dia de chuva


"...Esta é você, na chuva. Nunca pensou que fosse fazer algo assim.Você nunca se viu como - não sei como descreveria - como uma dessas pessoas que gostam de olhar a lua ou que passam horas contemplando as ondas ou o pôr-do-sol.Deve saber que tipo de pessoas estou falando. Talvez não saiba. Seja como for, você gosta de ficar assim: lutando contra o frio, sentindo a água penetrar na sua camisa e a sensação do chão ficando fofo debaixo dos seus pés e do cheiro. Do som dá água batendo nas folhas e todas as coisas que estão nos livros que você não leu. Essa é você. Quem teria imaginado? Você."











Trecho do filme : Minha vida sem mim.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Crescer


A lembrança doí. Meu cérebro tenta descobrir onde fica exatamente a dor, mas logo desiste, porque tudo dói.
Estou cansada de viver como se já fosse uma pessoa adulta e madura. Gostaria de voltar a ser criança - uma garotinha de seis anos que caiu da bicicleta. Gostaria de fazer cara de choro e correr aos berros para a cozinha, onde minha mãe me ergueria do chão, me daria um forte abraço e beijaria meu joelho esfolado. Eu pararia de chorar e tomaria leite com chocolate para a dor passar.

Essa é uma das coisas que as pessoas não nos ensinam quando falam de crescer: como lidar com as dores que não passam com um beijo.



Soul love - À noite o céu é perfeito!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Procura-se


Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.
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